12.27.2010

O segredo de B.

Pobre, tísico, aparência penosa, cheirando a sexo e ao leite materno que mais prejudicava a mãe do que o alimentava. Vivia aos cantos do barraco sempre chorando de fome, de dor, nunca de dengo. Ouvia da mãe que a dor era natural da idade, mas nunca ouvira que a dor era conseqüência do lugar que ocupava na pirâmide das classes.

A lentidão com que aprendera a comer o pouco fez dele o mais preciso dos degustadores, já aos sete anos de idade identificava como ninguém o sabor dos temperos contidos em um pedaço de carne quando tinha a sorte de encontra-lo. Valorizava cada bolo de comida posto em sua boca, fingia esquecer o odor azedo que às vezes predominava no prato e sempre agradecia pelo que Deus havia lhe dado. Infância difícil, por vezes desejava ter sido morto como os outros filhos que a mãe raquítica não suportava alimentar por nove meses na barriga.

Demorou a dar os primeiros passos, a falar, a ler, demorou até a mãe morrer. Aprendeu a tomar conta de si, aprendeu as duras penas como viver e foi trabalhar. Tornou-se jovem trabalhador, ajudado por desconhecidos, por amigos de amigos, ajudado em troca do próprio corpo. Sua vida tomou novos rumos, portas se abriram e a vida de miséria fugiu como o sol foge da lua todos os dias. B. se fez homem, corpulento, de traços fortes, sexualidade aguçada. Num passe de mágica a vida difícil tornara-se doce, porém difícil, os homens que pagavam pelos programas lhe davam nojo e as mulheres eram poucas. Vivia para o trabalho até descobrir aos berros, atravéz de um parceiro fixo, pertencer ao grupo dos soros positivos.

Inicialmente imaginou ter sido contaminado pelo próprio informante da sentença, posteriormente cogitou a possibilidade dos mais de cinqüenta tipos que já freqüentaram seus aposentos, mas certeza ele não possuía. Outras vítimas informaram que também haviam se contaminado, alguns por vergonha negaram, outros o condenaram e até quiseram linxa-lo. B. não sabia ser o agente transmissor, herança genética da mãe (in memoriam) e nunca soube a verdade crua.

6 comentários:

  1. Adoro o seus textos, te indiquei pra receber um selo, olha lá no meu blog :D :*

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  2. Dica querida, como está?
    Menina, achei perfeito esse seu texto. Fiquei boqueaberto, só ñ ficou melhor, pq ñ foi eu quem fez, kkkkkkkkkkkkkkkkk
    Brincadeira viu? rs
    Ai menina, saudade de tu tbm. Minha cara escrever assim, parecendo que estou batendo papo com alguém e tal, rs.
    Ah, feliz ano novo pra vc,m q seja um ano incrível, cheio de um monte de coisas boas, aquelas que a gente sempre deseja e tal, rsrs. E dindim tbm, é claro, kkkkkk
    Bjo

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  3. verdade crua.

    É a síntese do texto.

    Que força, heim?! Um soco no estômago estas palavras...

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  4. Texto maravilhoso flor, saudade de vc!
    to passando pra desejar feliz ano novo rs

    xerim

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  5. Trágico.
    A falta de informação também fere, e fundo.

    Bjs minha querida!

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  6. Oie linda!
    Fiquei super feliz por tua visita e carinho!
    Estarei te seguindo tbm tah?
    É um charme teu cantinho!Parabéns..

    Beijo!

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