8.20.2010

O segredo de T.


- Se choro não é para que sintam pena. Meu desespero é por não compreender o ato impensado que cometi. Minha esposa, meus filhos, meus netos, todos saberão que o marido, pai e avô num momento de fraqueza, aniquilado pela impôtencia, acreditou que uma garota mais nova pudesse trazer de volta o apetite sexual nos seus mais de 60 anos. Por miseros segundos de prazer sujei meu nome, minha vida inteira de integridade moral e nunca mais serei visto com bons olhos pela vizinhança. Irão se afastar de mim e apontarão o dedo, isso se não optarem pelo linxamento.
Atirarão pedras, pedirão minha cabeça numa bandeija. E eu clamarei sem direito a perdão.

- Não dei fim na vida dessa garota, como dizem. É provável que ela recorde desse fato como mais um de todos, já que são muitos. No seu corpo não há marcas, ou sêmen, talvez na boca. Sei o que cometi, só não quero pagar por erros que não são meus. Por isso, minha indignação, compreende?
Vocês se apiedam agora, mas não criam meios para prevenir que garotas precisem ir para as ruas a procura de dinheiro fácil. Me criticam, até se repugnam quando olham na minha cara, mas não tratam a garota como uma garota de programa, querem que eu pague por um crime, mas não tenta averiguar com precisão o que envolve os fatos. Preferem praticar a piedade, sentir raiva de um e acalentar o outro, julgar e criticar. O que houve foi uma troca, paguei pelo serviço e tudo com o consentimento de ambos. Existe alguém aqui mais vítima do que eu?


Dias depois a queixa foi retirada.
Tudo voltou ao seu devido lugar. T. feliz em sua casa junto à família que não soube do acontecido.
A familia da garota recebeu um valor significante de T.
A polícia também recebeu sua devida importância.

Até que a punidade os reaproximem.

8.10.2010

O segredo de R.

R. foi vítima num acidente de trânsito. A esposa viúva cria os filhos órfãos de pai. O atropelador responde um processo judicial. A testemunha fez papel de boba da corte. Os aproveitadores queriam o seguro do defunto. Os amigos arcaram com todos os gastos. O código de trânsito não está devidamente preparado pra julgar casos que levam ao óbito, e assim, predomina a impunidade e pessoas morrem.


A vítima

A passarela estava ocupada por pessoas de aparência duvidosa e provavelmente eu seria assaltado, por isso, atravessei a avenida com capacidade pra quatro carros passarem ao mesmo tempo. Apesar de ter bebido um pouco no bar horas antes, eu estava sóbrio. Já passava da meia noite, o trânsito estava ameno, eu já havia transitado por aqui outras vezes, foi o destino quem quis assim. Quando eu já estava quase no centro da pista um carro surgiu em alta velocidade, pensei em voltar, mas um ônibus já estava próximo demais. No breve espaço de tempo em que vi os dois veículos em minha direção escolhi ir pra frente, talvez o carro não pudesse fazer tanto estrago em mim e eu pudesse sair com vida dali. Morri no mesmo instante em que o carro se chocou comigo, meus braços foram arrancados, minha coluna esfarelou depois de tirar do lugar meus órgãos vitais, sofri alguns arranhões e não tive tempo nem pra lembrar quem eu deixei aqui pra chorar por mim.


A viúva

Eu não queria que ele tivesse ido, eu pedi, mas ele foi sem mim. Dói tanto viver sem ele que já quis morrer pra deixar de sofrer. O homem da minha vida morreu tão jovem, tão abruptamente, tão miseravelmente. Apesar das brigas, eu o amava e ainda amo mesmo com a morte a nos separar. O que me faz querer viver todos os dias são nossos filhos, razão do meu viver. No entanto, é duro acordar e ver nos olhos de cada um o pai, ver semelhanças entre eles e o meu marido. É como conviver com ele sem o ver. Só sei que um dia os culpados pagarão o terrível mal que cometeram.

E no fundo eu me sinto um pouco culpada por não ter dito nem um último eu te amo amo ao meu nego.


A testemunha

Os garotos estavam fazendo pega, eram mais dois carros além do carro que atropelou o transeunte, vinham numa velocidade absurda, ouvia-se até o barulho do motor e dos pneus na pista reta da avenida. Coitado daquele pedestre, felizmente não sofreu tanto. Foi fatal e fulminante. O que me dói é saber que ficará impune mais essa morte. Ninguém nesse país vai pra cadeia por ter matado alguém no trânsito. Quem sofre são os parentes da vítima.


As crianças

Nosso pai está no céu cuidando de nós, minha mãe disse. Às vezes a vejo chorando, mas não pergunto por que, só abraçamos e ela nos acolhe e logo para de chorar e vai fazer alguma coisa da casa. Cuidamos dela pra ela cuidar da gente. Um dia nos encontraremos no céu e voltaremos a ser uma família como antes.


O atropelador

Não imaginei que um louco estaria atravessando aquela pista às tantas da madrugada. Não parei por medo de linchamento, não queria que tivesse terminado assim, só estava brincando com uns amigos. Quem não aumenta a velocidade em pistas largas e livres? Mas me condenar é fácil, e se errei, ele errou assim como eu. Lugar de pedestre é na passarela e de carro na estrada.


Os aproveitadores

Vamos oferecer dez mil agora e a viúva fragilizada abrirá mão dos quase quatro mil a mais que receberá se esperar um pouco e resolver sozinha. Nesse momento de dor ninguém raciocina.


Os amigos

Era o amigão de todas as horas, pra tudo. Não sei como Deus pode ser tão cruel com alguns e tão misericordioso com outros. Vamos dar um enterro digno pra ele, mas essa morte não fica em vão. Pode durar a vida inteira, o filho da puta que fez essa desgraça com meu companheiro vai pagar e caro, nem que seja com dinheiro, mas vai.


O código brasileiro de trânsito

Não é claro.


Quem é o verdadeiro culpado? Desvende esse segredo revelado.