7.13.2010

O segredo de K.

Apesar da aptidão para se comunicar, do riso frouxo e dentes simetricamente cerrados, dos cílios delineados moldando os olhos cor de mel, da postura imponente e pele semi-bronzeada digna de um semi-deus, do contorno sem exageros do seu corpo, do jeitão esportivo cheio de marra, da paixão desenfreada por festas-álcool-futebol-garotas-sexo e praia, do desleixo com o dinheiro que lhe dão. Apesar de todas as suas peças o tornarem aparentemente interessante e seus recursos financeiros desejáveis, K. é oco.


Dentro dele os sonhos já nascem mortos, os beijos possuem hálito forte, as conquistas são castelos construídos de areia, os lamentos são passageiros de um trem desenfreado a 380 km por hora, as alegrias exigem tanto que ele não recorda quanto já precisou pagar, os rancores pressionam-no a jogar tudo pro ar, os dias costumam se arrastar e arrastá-lo esfolando-o inteiro no asfalto, a coragem é aprisionada em seu pensamento, os suspiros tornam-se iguarias das datas super especiais, as paixões surgem trajadas de medo e o amor de desespero do qual não quer experimentar.


Nunca foi de se arriscar e quando esteve na beira do precipício não soube se libertar, voltou dizendo que iria mudar, mas tudo continua como sempre no lugar. Desejou por anos a irmã do melhor amigo, embora não soubesse como conquistar. Estudou em escolas de classe alta, mas precisou comprar a conclusão do ensino médio pra passar no vestibular. Teve uma mãe e um pai somente na certidão de nascimento, hoje tem uma mãe postiça que na verdade é tia. Viaja de tempos em tempos, por caminhos quase sempre novos, possui uma namorada aqui e a outra ali. No entanto, é sozinho, mas não tenha dó.


O segredo de K. é segredo pra ele também. Não sabe onde andam seus pais, quem eram e o que são, por que não quiseram cria-lo, por que deram-no sem usar o coração. Perguntas sem respostas, perguntas que pressionam seus pés no chão e endurecem o coração. Seu jeito de viver errado, suas crises existenciais, suas dores imortais são as respostas dele pra ele. Sente-se injustiçado, com toda razão, acha que não? K. é o que a vida quis que ele fosse: um sortudo. Não teve pai ou mãe, mas é regado a mil possibilidades, há um passo do primeiro degrau da escada que é só pra ele trilhar, oportunidades pra ele não hão de faltar, basta aproveitar. Porém, K. é um tolo e prefere se lamentar parado no primeiro andar olhando para o buraco aonde irá se afundar quando o mundo se fechar.



8 comentários:

  1. "Os sonhos já nascem mortos." Escorre melancolia desse trecho! Gostei muito, só pra variar! Continue sempre escrevendo, você tem o dom!

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  2. Eu vejo tantos Ks nesse mundo..

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  3. Trago minha fé para juntar com a sua nesta festa de palavras.

    Te abraço com carinho

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  4. Posso agrupar os três comentários num só?
    Você exacerba sua carga poética, Dica. E isso é ininterrupto, pois sei que no próximo post você virá ainda mais afiada. E, quando chego ao ponto final, já espero loucamente pelo próximo.

    "Nunca foi de se arriscar e quando esteve na beira do precipício não soube se libertar, voltou dizendo que iria mudar, mas tudo continua como sempre no lugar."
    Eu sempre achei mais fácil desistir. rs
    Saudade de ti.

    Beijos.

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  5. Não há o que culpar
    Não há a quem culpar
    A culpa está
    Dentro de si
    Apenas...

    Belo texto!

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  6. O comentário que estava escrevendo, se foi...

    ...Você nos faz mais que pensar: nos faz sentir; e, em uma profundidade razoável.
    Ao mostra-lo, você nos mostra; ele faz parte da raça humana, faz parte de nós...

    Por isso sua escrita, seu desvelo (pois o é), me impressiona: existe verdade em cada vírgula, em cada ponto.
    A mesma que existe em você.

    Ler vc é despertar algo de mim, por você.

    Abraços.

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  7. sempre muitos segreos aqui. Ele não tem pq se sentir injustiçado, todos somos tortos.

    Abraços

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  8. "Dentro dele os sonhos já nascem mortos"

    isso sim é triste!
    =/

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