6.10.2010

O segredo de G.


Desde a infância G. soube que nasceu pra ser o que ninguém quer ser. Excluído familiar, sutilmente aprendeu desde muito cedo a viver para si e fazia disso sua arma de estimação. Sempre notava segundas intenções antes mesmo de elas aparecerem, nunca acreditou em bondade genuína. Ele estava certo, quem sou eu pra desmentir quem na vida só tropeçou? E agora, com estes anos nas costas provou para todos que seu existir foi um erro cometido por algum espírito brincalhão que o observava pelo buraco da fechadura. Sabendo disso, G. caprichava nas malandragens só pra apimentar as imagens vistas do outro lado da porta, a garantia de espectador o motivava a continuar o show.

Consumiu a vida avidamente como o fogo consome o cigarro, tudo muito rápido e perigoso. Retrocedeu, violentou seu templo, e, hoje não serve de nada. Fez mal uso de si, por isso, trouxe seus dias enfumaçados pra você que gosta de ler, pra você que conhece pessoas como ele, pra você que é como ele. G. veio lhe contar como viveu. Comuniquei sobre meu público, informei que por aqui os pensantes gostam de se aventurar conhecendo vidas distantes das suas, existe respeito. G. desacreditou gargalhando, pra ele você é um animal querendo horror.

Não que G. se importe com a humanidade, comigo ou com você, mas contar sua história melhorou muito o seu dia. Se não fosse aqui seria lá fora sentado no passeio público sentindo o odor do esgoto mais próximo. Aqui tem poesia, ele disse sem acreditar no que dizia.

Olhar pra ele é como olhar um buraco negro raso de emoção, nota-se somente sua triste solidão. Não demore observando-o, ele é capaz de devorar o que de melhor existe dentro dos que o veem. Nasceu de pessoas descompromissadas, viveu numa liberdade sem limites, sempre descontente, foi educado nas ruas, obteve amor de duas ou três pessoas. As más influências, revoltas juvenis e desamor tornaram-no cego, surdo e mudo. Assim, foi trilhando um caminho de ida sem volta. Começou fumando maconha, passou pra cocaína. Conseguia emprego e saia, as amizades eram da pior espécie, afundava no crime cada vez mais, mas gostava de ser o desgosto dos pais. Foi preso e dentro da cadeia conheceu pessoas iguais a ele, perdidos no mundo, sem rumo, ex-sonhadores. Saiu de lá pior do que entrou. Usou mais drogas, vendeu, roubou, só não matou.

Permaneceu preso só que nele mesmo. G. não acredita ter jeito e lamenta por ter feito da vida alimento pra traças. Um dia aparecerá morto no noticiário e desse fim ele não escapa.
Já completamente envolvido na criminalidade não vê como recomeçar ou retroceder.
G. não soube viver. E pra viver precisa saber.

14 comentários:

  1. Foi tão real que agora não sei se esse blog é ficção ou não.

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  2. Em linhas que à primeira vista parecem carregadas, agora vejo com quanta suavidade você expõe o que há de mais lascivo na humanidade. Assim é mais fácil encarar. Incrível.

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  3. Para VIVER esta vida, realmente é preciso SABER vivê-la...alguns deslizes podem ser fatais...

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  4. Pra viver, é necessário não só saber viver; mas como ser cego, mudo e surdo. Mas não exatamente para tudo. Ser cego para as desgraças e más coisas, ser surdo para os conselhos de más índoles, ofensas e humilhações; e mudo para que nunca, jamais, possamos machucar outro alguém.
    Ele quase soube viver...
    Creio que a esperança nunca acaba, e nunca é tarde pra tentar novamente; apenas é necessário fé e força de vontade.
    Se ele quiser realmente, G. se "levanta e anda"... e não vai sair no manchete como mais uma vítima de crack, heroína ou maconha, e sim em uma coluna do "Sobrevivi".

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  5. Que lindo, triste, mas lindo! Eu não entendo porque existe gente assim?! conheço alguns desse naipe.

    BeijooO'

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  6. Muito obrigado, voce pegou o jeito de ler o meu conto, pois tem uma respiração propria, muito obrigado, voce foi fantastica, maravilhosa, e depois volto para comentar os outros teus, muito fascinante teu comentarios, linda tenh um sabdo belissimo, beijos !!!

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  7. tem momentos na vida que o melhor a fazer...é não fazer nada!

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  8. Pensei, tô pensando agora, nos muitos Gs que há por aí; um diferente do outro, mas muito iguais.

    Abrçs.

    (Uma história, como sempre, bem contada.)

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  9. Dica, acredito que você esteja na sua melhor forma. Foi incrível te ver desenvolvendo, criando, melhor do que nunca, creio eu. Passou-se um filme aqui na minha mente, será que quando você for reconhecida ainda vai se lembrar de mim? rs
    Quero voltar a te ler regularmente, e te mostrar que você é a que mais merece minha atenção.
    Dica, eu te adoro!
    Beijos.

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  10. Parabéns pelo texto, mostra uma realidade muito... crua, assim, podemos dizer em forma de conto .

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  11. Essa sua conclusão foi a variante verdadeira da história.


    Obrigada pela visita.

    Seu post,
    Devastador.

    Meus cumprimentos.

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  12. Ja tive pessoas assim bem próxima de mim, e doí, ver q alguem não sabe se usar, e não há como ensinar, porq não querem aprender...bj** amei o texto

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  13. a medida que eu ia lendo eu ia me dizendo que eu tinha um poudo de G., mas eu tenho um sério problema de achar que eu tenho um pouco de tudo quando na verdade em mim eu não sei o que tenho.

    tinha saudades de você em palavras, fofinha.

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  14. triste mas bonito, intenso.
    Maurizio

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