5.26.2010

O segredo de O.


Imagine um homem que entre filhos e netos possui mais de trinta descendentes. Imagine um ser querido por todos, desde o gari ao pastor da igreja. Imagine uma aparência calejada e pele completamente enrugada. Imagine uma rotina: casa-Deus-supermercado. Imagine uma casa varandada, repleta de plantas que são cuidadas todos os dias, paredes levantadas com trabalho árduo, chão surrado por variados passos. Imagine um quarto decorado com livros cobertos de traças, cheirando a antiguidades, carregado de imagens e gavetas pesadas de remédios controlados, sem os quais um ancião não poderia sobreviver. Imagine uma vida inteira ao lado de uma mulher com quem se viveu tantos anos que perdeu a conta. Imagine que essa mesma mulher não ama, nem é amada, mas é essencial na vida do homem que divide os dias com ela. Imagine quantos momentos bonitos esse homem viveu, não esqueça de imaginar também as muitas vezes que foi pra cama de barriga vazia para que a dos filhos estivessem cheias. Imagine com alma..

Esse homem sou eu, e, se minha vida não comove vocês, homens da lei. Olhem nos olhos daqueles pequenos que encontram-se logo ali, na varanda. Observem seus olhos assustados por verem estranhos tentando levar seu avô algemado. A dor que sinto agora não será maior que a tristeza deles enquanto eu estiver saindo. Não penso nos vizinhos, na mulher que viveu comigo tantos anos e nunca soube do meu passado, muito menos nos meus filhos. Penso nos meu netos, nos meus pequeninos. Se matei foi por terem matado primeiro a mim. A raiva em minha vida foi como um demônio evocado que não controlei. É na adolescência que começamos a guardar segredos dos quais vamos nos arrepender para o resto da vida, mas desse segredo eu nunca hei de me arrepender um dia. Estou sendo levado por ter tirado do mundo o estuprador da minha Cecília, minha pequena irmã indefesa, minha vida, motivo de vergonha pra família e a justiça me achou ainda em vida. Não teriam achado o estuprador se ele estivesse vivo hoje em dia.