4.19.2010

O segredo de J.


Nota da autora:
Por quatro ou nove vezes desisti de compartilhar o segredo de J.
Porque eu tinha certeza que minha opinião iria sobrepor à verdade do segredo,
porque mesmo tentando ser fiel a realidade
minhas impressões e amizade por J. tornaria o texto mais meu do que dela.

Mesmo com tantos empecilhos criados por mim, escrevi, fiz de mim também um personagem.


J. é do tipo camaleão, se adapta fácil a qualquer lugar-situação-indivíduo. Essa habilidade dependendo do ponto de vista pode ser interpretada positivamente, uma qualidade, é justamente isso o que J. acha. Considera sua imprevisibilidade a melhor de todas suas qualidades, nisso discordamos. Suas infinitas personalidades deixam dúvidas, embaraçam as opiniões que os outros possuem sobre ela e inclusive a opinião dela sobre ela mesma.

Sempre foi expansiva, comunicativa, divertida, pra frente, mentirosa, excessiva, malandra, provocante, apaixonante, faz parte dessa turma que faz teatro e pinta a cara de palhaço.
Pessoas perigosas são as mais prazerosas de amar. Com elas descobrimos milhões de achados, por elas cometemos crimes e sem elas a gente mofa e fica embolorado. Foi uma graça infinita e ao mesmo tempo demoníaca ter conhecido J. durante seu processo.

J. me ensinou muito, principalmente a não ter medo de uma mulher quando ela se assume homossexual. Exorcizou de mim a idéia fixa de que manter amizade com lésbicas poderia incumbir em mim à homossexualidade.
Mas nem tudo são flores, nem tudo o que dizemos é o que fazemos...

J. de filha pródiga passará a crucificada. Ela sabe das dores que causará aos pais, familiares. Por enquanto, J. ainda leva em consideração o que os outros pensam, o preconceito que virá sofrer ainda aterroriza seus dias, teme não suportar as indelicadezas e ultrajes. Aos onze anos teve seu primeiro beijo convencional, foi com um menino da mesma idade, seu vizinho. Ela conta que além do desconforto do primeiro beijo, da falta de jeito, não sentiu nada que fizesse o corpo vibrar. Até então, não havia indícios de que seu corpo só reagiria ao toque feminino. Não fazia idéia de que poderia ser melhor se fizesse o mesmo com uma menina. Até os treze anos só beijou meninos, algumas vezes achou que gostava daquilo, noutras tinha certeza que não. J. levou bastante tempo até descobrir suas preferências, teve medo de si.

Mostra-se forte, bem aceita e independente para os amigos, mas é tudo encenação. Levou pra vida o que deveria ficar nos palcos, no teatro. Antes dos catorze anos beijou A., menina, se apaixonou, namorou escondido, terminou, ficou na dúvida.
Conheceu I., menino, se encantou, namorou, transou, teve certeza de que não curtia aquilo, mas se intitulou bissexual.
Conheceu sua atual namorada, está apaixonada, cortou cabelo, trocou guarda-roupa, enfiou tênis nos pés, os pais fingem não saber nada, os parentes perguntam pelo namorado, ela fotografa um amigo gay e apresenta aos parentes como sendo o namorado, a namorada freqüenta sua casa, dormem no mesmo quarto, vivem juntas como se fossem melhores amigas inseparáveis. Pra ela a homossexualidade é uma maravilhosa desgraça e de tão leve chega a quebrar os ossos do corpo inteiro. É um fardo pesado, insustentável, livremente disfarçado.